Antes do Silêncio
Arrastei minha poltrona para mais perto da lareira enquanto Rivers completava meu copo com uísque. Apreciei a conveniência com que estavam dispostos estes regalos.
Rivers colocou mais um pedaço de carvalho em meio aos tições e de alguma forma relativamente compreensível isso despertou-lhe alguma idéia adormecida. Ele resolveu tirá-la do leito e plantá-la em nosso diálogo que se fazia estagnado até então.
– Veja o amor. – atalhou Rivers. – O amor é como o fogo. Deve ser alimentado para que seja contínuo. Deve ser alimentado...
– E qual seria o respectivo pedaço de carvalho do amor? – indaguei.
– Bem, caro amigo, creio que concedeste-me espaço para um breve divagar. – Ajeitou-se na poltrona, tomou um gole de água e prosseguiu. – Somos capazes de nos defender de um ataque, mas somos indefesos a um elogio. Com frequência subestimamos o poder do carinho, de um sorriso, de uma palavra amável. Pequenos atos alimentam este grandioso sentimento que é o amor. Não devemos esquecer de escutar. Sim, camarada. Saber ouvir. Prestar atenção na pessoa amada. Dedicação...
Houve uma pausa. E eu já estava esperando a famosa objeção que completaria seu pensamento.
– Porém, devo ressaltar que – prosseguiu Rivers, – que na realidade, na crua e paradoxal realidade...
Houve um conhecido silêncio que eu não ousei contrariar.
Durante o Silêncio
Houve um conhecido silêncio que eu não ousei contrariar.
Rivers mantinha o olhar fixo em algum ponto através da janela fechada. Talvez escolhera uma bela estrela disposta na imensidão da vitrine obscura que se fazia o céu. Magnífico contraste presente naquela noite fria.
Por um momento percebi uma dose de dúvida naquele olhar.
– O que estou dizendo? – pensava Rivers. – Com que credibilidade posso afirmar que conheço o combustível do amor? A ficção é demasiadamente perfeita. A conjectura é clara e precisa. Mas a realidade é complicada. Nada tem estilo. A vida é um infernal emaranhado de eventos aleatórios e sem explicação.
– Eventos aleatórios. – Rivers continuava divagando. – Eis a beleza intrínseca da vida. Eventos aleatórios. Somos diariamente surpreendidos e testados. Nossos princípios são colocados em prova em cada evento que não pudemos prever.
– A vida. Infernal emaranhado? Não! – Rivers conseguiu se posicionar em seu próprio mar de reflexões. - A vida é um sublime emaranhado de eventos aleatórios e sem explicação. Sublime! A vida é bela. E devemos confiar na aleatoriedade. Sim! Nossa chance de desfrutar dos conceitos fictícios está prevista pela probabilidade. O amor que tanto queremos alimentar está em algum lugar nesse emaranhado. E pode estar mais perto do que julgamos.
Depois do Silêncio
Houve um conhecido silêncio que eu não ousei contrariar.
Um estalo na lareira. Esse foi o artíficio daquele pedaço de carvalho para chamar a minha atenção. Atendi seu humilde pedido e contemplei o espetáculo. O leve crepitar das chamas rompia o silêncio de uma maneira majestosa. E o tique-taque do relógio mantinha o compasso.
Acima da lareira jazia o retrato de meio-corpo de John Rivers.
Uma nova manifestação sonora surgiu em meio aquele concerto que já se alongava por uma dezena de minutos. Era o relógio que mudou a nota e resolveu marcar as horas com suas estrondosas badaladas. Estrondosas o suficiente para capturar meu interlocutor de sua reflexão silenciosa e trazê-lo de volta para o diálogo que se desenvolvia.
– E pensar – disse Rivers, - pensar que quase tomei o caminho das negativas. Não vale o esforço pensar nas negativas do amor. Dessa vez, caro amigo, terei de desapontá-lo. Não haverá objeção. Não devemos hesitar neste assunto. Dúvidas podem bater a nossa porta, mas não há necessidade de convidá-las para entrar e oferecer poltrona e lareira. Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o bem que às vezes poderíamos ganhar pelo medo de tentar.
– “Duvides que as estrelas sejam fogo, duvides que o sol se mova, duvides que a verdade seja mentira, mas não duvides jamais de que te amo.” – concordei que uma citação de Shakespeare se ergueria bem na ocasião presente.
– Exatamente! – reforçou Rivers. – Exatamente isso, camarada. – e erguendo-se de sua poltrona, dirigiu-se para um armário disposto em um canto da sala. Voltou com uma pequena caixa de madeira e perguntou-me, - Charuto?