domingo, 31 de outubro de 2010

Admirável

Primavera.
Era um desses líricos dias de primavera.
Uma dessas manhãs positivamente shakespeareanas.
Chovera à noite.
As árvores faziam reverências sob a brisa fresca.
As folhas novas cintilavam ao sol como jóias.
As grandes nuvens marmóreas no horizonte estavam divinamente esculpidas.
Esculpidas num momento de extática felicidade e poder sobre-humano.

Flores.
E havia as flores.
Flores nos jardins das casas.
Flores nos canteiros das praças.
Cada flor tinha a beleza consciente de um rosto amado.
Admirável beleza.
Sua fragância era um agradável mistério conhecido.
As pétalas, sob os dedos da minha imaginação, tinham a maciez, a sedosa frescura e elasticidade de uma epiderme viva.
O mundo estava ébrio de suas próprias perfeições, estuante com seu excesso de vida.


"Felicidade é ter o que fazer, ter algo que amar, e algo que esperar."

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Norte

Leste.
Ele acordou e foi até a sacada.
Olhou para baixo e contemplou o ainda tímido movimento de carros nas ruas.
Um cachorro latiu. Outro respondeu.
Levantou a cabeça e a direcionou para o leste.
O sol estava nascendo.
Diante daquele gigante, um velho conhecido entrou em cena.
Um conhecido que não batia na porta.
Simplesmente surgia quando ele menos esperava.
Era o desejo de amar.
Amar e ser amado.
Sinceramente. Intensamente.

Norte.
De velho conhecido, o sentimento passou a ser um guia.
Guiou seus olhos para o norte.
Para uma casa. Aquela não era uma casa qualquer.
Contemplou por alguns instantes aquela bela construção.
Era o abrigo de uma donzela.
Uma linda donzela.
Naquele momento ele percebeu uma fraqueza.
Ali, naquela humilde sacada, ele podia tão pouco por aquela que ama.
Desejou estar com ela.
Desejou fitar aqueles olhos tão lindos. Tão cheios de brilho.
Ele sentiu um aperto no peito.
Seu coração pulsou mais forte.
Tentou se desvencilhar daquele guia.
Virou as costas para a sacada e entrou no quarto.
Engoliu em seco.
Com a mão direita ele se benzeu.
Com a esquerda abriu a porta.
Começou mais um dia paulificante.

Oeste.
Como de costume ele voltou a tempo.
A tempo de contemplar o gigante encerrar seu expediente.
Um vento quente soprava na sacada.
Ele se apoiou na grade e fitou o oeste.
O sol estava se pondo.
Aquela mistura de cores o fascinou. Sempre o fazia.
Os últimos minutos de suspiro daquele astro se dilataram em uma eternidade.
Uma eternidade de planos e reflexões.
Mas nenhuma conclusão.

Leste. Norte. Oeste.
Leste. Norte. Oeste.
Os dias passavam e essa teimosa sequência era repetida.
Já aconteceu antes.
Não devia acontecer de novo.

Bússola.
A vida dele estava norteada.
Ele tinha uma direção a seguir.
Nunca houve dúvida.
O norte aponta o caminho.
Amar é preciso.


"Não serei eu que direi para você seguir em frente.
Direi: Vou com você."


terça-feira, 26 de outubro de 2010

Esperança

Gota.
Havia uma aconchegante planície dourada.
No horizonte, uma tênue linha branca insistia em manter o límpido céu azul separado de sua áurea amada.
Havia uma nuvem. Um sinal de esperança.
Esperança de que houvesse uma gota de água prestes a despencar em direção àquela linda planície dourada.
A linha seria cruzada.
A terra seria tocada carinhosamente.
O sinal de afeto seria demonstrado.

Vento.
O vento acariciava suavemente minha pele.
Podia sentir meus pés se fundindo com aquela terra morna e macia.
Eu caminhava sobre uma bela planície dourada.
Havia uma nuvem branca e solitária em meio ao céu azul.
Eu também estava solitário.
O trigo batido indicava um caminho em minha frente.
O horizonte fazia mistério. Não revelava o final da estrada.
Continuei caminhando.
Minha mão esquerda tocava levemente o trigo dançante.
O ritmo era regido pelo mesmo vento que ditava o balanço de meus cabelos.

Lírios.
O caminho da planície era deliciosamente interminável.
Parei por um momento. Levantei os olhos em direção àquela nuvem.
Uma gota atingiu minha face.
Uma mão delicada tocou o local do impacto e retirou o excesso de água.
Girei sobre os calcanhares e nada.
Não consegui identificar a origem daquela mão tão doce.
Não consegui sentir mais nada.
Já não estava mais diante daquela planície.
Já não era acariciado pelo vento.
Minha face estava tocando o travesseiro.
O quarto estava escuro como breu.
Mas minhas narinas de pronto reconheceram a aura da feminilidade e de lírios que envolvia uma presença invisível.
Encontrei a fonte de tamanha delicadeza. Encontrei de onde veio aquela mão.
Levantei da cama. Senti o frio e a dureza do chão. Abri as cortinas da janela.
O quarto foi revelado. Ela não estava em nenhuma parte.
Só sentia o cheiro dos lírios. Só sentia o toque macio daquela mão.
Fui em direção a janela e contemplei o céu azul.
Havia uma nuvem. Uma única nuvem.


"Façamos da interrupção um caminho novo.
Da queda um passo de dança. Do medo uma escada. Do sonho uma ponte. 
E da procura um encontro!"


segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Dias Comuns

Eficientes.
Leitor, não se desaponte com o caráter efêmero do relato de hoje.
Meus dedos cumprem suas funções perfeitamente. Não há greve. Não há reclamação.
Simplesmente trabalham.
Porém, não há demanda suficiente para suprir tamanho potencial.
Não em dias comuns.

Nobreza.
Mas o que seria dos dias de glória se não houvessem dias comuns?
Os dias comuns têm uma nobre finalidade:
Tornar os dias excepcionais realmente excepcionais.


“A glória é tanto mais tardia quanto mais duradoura há de ser, porque todo fruto delicioso amadurece lentamente.” - Arthur Schopenhauer

domingo, 24 de outubro de 2010

Morango & Limão

Morango.
Como não ser hipnotizado por tamanha beleza?
Como não sucumbir a tamanha doçura?
A fortaleza mais estóica não resistirá.
Não resista.
Apenas perceba a amável travessura da natureza para nos manter calados.
Pois as palavras já são supérfluas.
Basta aproveitar a maravilhosa sensação de desfrutar dessa doçura.

Limão.
Alguns concordarão que pode ser azedo.
E assim, poucos poderão apreciar o intenso sabor.
E a intensidade é o ponto de destaque.
Dificilmente haverá maior empenho.
Empenho em proporcionar um tipo de sensação intensa e inesquecível.
Não há travessura.
Há dedicação.
Dedicação voltada para a satisfação de uma necessidade.
Necessidade de saborear algo diferente. Algo diferente daquela trivialidade superficial.

Limão & Morango.
Juntos?
Tentador!

“Há tanta suavidade em nada dizer.
 E tudo se entender.”


sábado, 23 de outubro de 2010

Prolegômenos

Arte.
Ontem, alguns pensamentos passaram rapidamente por mim e apenas lançaram cordiais cumprimentos.
Para sua sorte, leitor, hoje eles resolveram voltar para uma visita.
O maior sonho dos alquimistas era transformar um metal qualquer em um metal precioso.
Então, me atrevo a fazer uma analogia entre os pensamentos e os metais.
Nós pensamos, e fazemos com que o abstrato seja exibido de forma concreta por meio das palavras.
Porém, nossos olhos e ouvidos seriam mais felizes se nós evitássemos ser alquimistas de palavras.
Sim, leitor, poderíamos ser menos alquimistas. Porque assim como os alquimistas, não conseguimos transformar algo aparentemente sem valor em algo valioso.
As palavras jorram sem sentido, sem brilho.
Deveríamos, portanto, ser ourives. Deveríamos refinar o pensamento.
Nenhuma esplêndida transformação se faz necessária. Apenas o refino daquilo que já está carregado de valor.
Você deve ter reparado, leitor, que me refiro a "nós", pois também estou incluído.
Como não poderia estar?
Estes relatos são minhas tentativas de praticar o refino dos pensamentos. E como está evidente, ainda sou um aprendiz na arte da ourivesaria.

"Palavras de afeto podem ser pequenas e fáceis de dizer. Não hesite em dizê-las. Pois são palavras preciosas, cujos ecos são verdadeiramente infinitos."