segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Especial

Quando encontrar alguém.

E seu coração parar por alguns instantes.

Se os olhares se cruzarem, e houver o mesmo brilho.

Se o toque dos lábios for intenso.

Se o beijo for apaixonante.

Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for essa pessoa.

Se a vontade de ficar juntos apertar o coração.

Agradeça, você encontrou alguém especial.



Grande

O amor é grande.
Mas cabe numa janela sobre o mar.

O mar é grande.
Mas cabe na cama de amar.

O amor é grande.
E cabe no breve espaço de beijar.



segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Ausência

Os velhos dedos finos de John Rivers entraram suavemente no interior daquela caixa de madeira e saíram na companhia de um imponente charuto de Pinar del Río. A caixa era majestosamente decorada, e as iniciais de Rivers se destacavam no entalhe da tampa. Com semelhante majestade, os dedos experientes cortaram uma das pontas daquele troféu. E enquanto acendia essa mesma extremidade, ele se dirigiu à janela que ainda permanecia fechada.
Acompanhei a trajetória de Rivers até a janela, mas não presenciei o sucesso da empreitada. Novamente fui chamado por aquele silêncio inquieto do grupo de brasas ardendo na lareira. Percebi que havia alguns pedaços de carvalho relutantes em exercer sua nobre função de alimentar aquele fogo. Fogo essencial que mantinha meus membros inferiores aquecidos. Aquela amadeirada greve me deixou intrigado por alguns instantes.
Entre luz e fusco, tudo há de ser breve.
Houve um estalo na janela. Rivers resmungou algo incompreensível e a janela foi parcialmente aberta. O vento ignorou um cordial pedido de permissão e entrou. Foi o suficiente para eliminar a greve dos carvalhos. O fogo se inflamou de uma maneira peculiar e intensa.
- Veja você – atalhou Rivers, pousando sua mão sobre meu ombro. – O vento é para o fogo o que a ausência é para o amor. Extingue o pequeno, mas inflama o grande e intensifica o verdadeiro.

domingo, 7 de novembro de 2010

Arroz & Flores


Me perguntas por que compro arroz e flores?
Compro arroz para viver.
E flores para ter algo pelo que viver.



terça-feira, 2 de novembro de 2010

Diálogo

Antes do Silêncio

Arrastei minha poltrona para mais perto da lareira enquanto Rivers completava meu copo com uísque. Apreciei a conveniência com que estavam dispostos estes regalos.
Rivers colocou mais um pedaço de carvalho em meio aos tições e de alguma forma relativamente compreensível isso despertou-lhe alguma idéia adormecida. Ele resolveu tirá-la do leito e plantá-la em nosso diálogo que se fazia estagnado até então.
– Veja o amor. – atalhou Rivers. – O amor é como o fogo. Deve ser alimentado para que seja contínuo. Deve ser alimentado...
– E qual seria o respectivo pedaço de carvalho do amor? – indaguei.
– Bem, caro amigo, creio que concedeste-me espaço para um breve divagar. – Ajeitou-se na poltrona, tomou um gole de água e prosseguiu. – Somos capazes de nos defender de um ataque, mas somos indefesos a um elogio. Com frequência subestimamos o poder do carinho, de um sorriso, de uma palavra amável. Pequenos atos alimentam este grandioso sentimento que é o amor. Não devemos esquecer de escutar. Sim, camarada. Saber ouvir. Prestar atenção na pessoa amada. Dedicação...
Houve uma pausa. E eu já estava esperando a famosa objeção que completaria seu pensamento.
– Porém, devo ressaltar que – prosseguiu Rivers, – que na realidade, na crua e paradoxal realidade...
Houve um conhecido silêncio que eu não ousei contrariar.

Durante o Silêncio

Houve um conhecido silêncio que eu não ousei contrariar.
Rivers mantinha o olhar fixo em algum ponto através da janela fechada. Talvez escolhera uma bela estrela disposta na imensidão da vitrine obscura que se fazia o céu. Magnífico contraste presente naquela noite fria.
Por um momento percebi uma dose de dúvida naquele olhar.
– O que estou dizendo? – pensava Rivers. – Com que credibilidade posso afirmar que conheço o combustível do amor? A ficção é demasiadamente perfeita. A conjectura é clara e precisa. Mas a realidade é complicada. Nada tem estilo. A vida é um infernal emaranhado de eventos aleatórios e sem explicação.
– Eventos aleatórios. – Rivers continuava divagando. – Eis a beleza intrínseca da vida. Eventos aleatórios. Somos diariamente surpreendidos e testados. Nossos princípios são colocados em prova em cada evento que não pudemos prever.
– A vida. Infernal emaranhado? Não! – Rivers conseguiu se posicionar em seu próprio mar de reflexões. - A vida é um sublime emaranhado de eventos aleatórios e sem explicação. Sublime! A vida é bela. E devemos confiar na aleatoriedade. Sim! Nossa chance de desfrutar dos conceitos fictícios está prevista pela probabilidade. O amor que tanto queremos alimentar está em algum lugar nesse emaranhado. E pode estar mais perto do que julgamos.

Depois do Silêncio

Houve um conhecido silêncio que eu não ousei contrariar.
Um estalo na lareira. Esse foi o artíficio daquele pedaço de carvalho para chamar a minha atenção. Atendi seu humilde pedido e contemplei o espetáculo. O leve crepitar das chamas rompia o silêncio de uma maneira majestosa. E o tique-taque do relógio mantinha o compasso.
Acima da lareira jazia o retrato de meio-corpo de John Rivers.
Uma nova manifestação sonora surgiu em meio aquele concerto que já se alongava por uma dezena de minutos. Era o relógio que mudou a nota e resolveu marcar as horas com suas estrondosas badaladas. Estrondosas o suficiente para capturar meu interlocutor de sua reflexão silenciosa e trazê-lo de volta para o diálogo que se desenvolvia.
– E pensar – disse Rivers, - pensar que quase tomei o caminho das negativas. Não vale o esforço pensar nas negativas do amor. Dessa vez, caro amigo, terei de desapontá-lo. Não haverá objeção. Não devemos hesitar neste assunto. Dúvidas podem bater a nossa porta, mas não há necessidade de convidá-las para entrar e oferecer poltrona e lareira. Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o bem que às vezes poderíamos ganhar pelo medo de tentar.
– “Duvides que as estrelas sejam fogo, duvides que o sol se mova, duvides que a verdade seja mentira, mas não duvides jamais de que te amo.” – concordei que uma citação de Shakespeare se ergueria bem na ocasião presente.
– Exatamente! – reforçou Rivers. – Exatamente isso, camarada. – e erguendo-se de sua poltrona, dirigiu-se para um armário disposto em um canto da sala. Voltou com uma pequena caixa de madeira e perguntou-me, - Charuto?